― Douglas Adams. So long, and thanks for all the fish
Cresci em um país pobre, e com sérias dificuldades educacionais. Isso explica algumas circunstâncias de minha infância, embora não recubra certas preferências e deficiências de minha personalidade. Esta longa introdução serve para justificar o fato de que, embora sempre me tenha tido por artista (o que talvez tenha mudado nos últimos anos) e pensador, poluí uma parte significativa de minha vida com asneiras das mais diversas, como a televisão.
E a televisão, neste país pobre, era e é privatizada – uma péssima decisão. Assim, ao contrário de supostos outros lugares onde a televisão é estatal, e provavelmente compõe-se de programas, a televisão aqui é composta por uma sequência de anúncios publicitários recheados com algum fait-divers, cada vez mais imbecilizado. O cúmulo da mídia: voltar-se sobre si mesma, deixando de ser um canal, um meio, para se tornar um fetiche.
Mas, enfim, os anúncios, conhecidos popularmente como comerciais: sua recorrência, e o trabalho apurado que envolve sua produção, tornam-nos mais marcantes que os próprios programas. Minhas memórias da televisão se dividem entre desenhos, filmes, programas da madrugada (vistos com certa cumplicidade dos outros, desde a infância) e comerciais. Alguns enredos de reclames eram e são francamente superiores aos programas – especialmente quando estes programas são certas “atrações” pretensamente cômicas e que envolvem a repetição nauseante das mesmas situações esdrúxulas, semanalmente.
(Repetições nos comerciais causam, igualmente, irritação. Talvez os publicitários precisem pensar em estratégias de redução do tempo em que uma campanha fica veiculada: o que implicaria mais gastos, se fosse mantido o padrão de produção, mas há de se pensar uma escala que reduza estes gastos… As técnicas de publicidade ainda parecem muito concentradas em esquemas pré-definidos, variando-se poucos elementos.)
Infelizmente há uma decaída no padrão dos roteiros e na presença dos personagens, em anúncios televisivos do presente. Pode-se acompanhar uma sequência inteira de moçoilas sorrindo e fazendo graças (sem serem atrizes, ex-modelos burras improvisam como podem uma expressão que jamais parece genuína); casais jovens e ricos tem conversas recheadas de frases do senso comum; um bar estranho é exibido, no qual todas as mesas se conhecem e aqueles que bebem são só os felizes – quando é que você já foi num bar e não viu alguém bebendo por tristeza e desolação? Ou comerciais de bancos que parecem mais vender um estilo de vida, como se o banco fosse atributo fundamental da personalidade.
O politicamente correto, o femismo (equivalente venusiano do machismo), a estética da máquina eficiente, estes são alguns dos ingredientes que tornaram tão infeliz esta mudança na publicidade entre as décadas de 1990 e 2000.
Salva-se uma parte pequena dos comerciais, como os de papel higiênico: a excreção ainda é cômica, e não ‘chic’, ’style’ ou ‘moderna’, para nossa sorte!